quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Febre Chikungunya

 Febre Chikungunya

  

A chikungunya é uma arbovirose causada pelo vírus chikungunya (CHIKV), da família Togaviridae e do gênero Alphavirus. A viremia persiste por até dez dias após o surgimento das manifestações clínicas. A transmissão se dá através da picada de fêmeas dos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus infectadas pelo CHIKV.

Os sinais e sintomas são clinicamente parecidos aos da dengue – febre de início agudo, dores articulares e musculares, cefaleia, náusea, fadiga e exantema. A principal manifestação clínica que a difere são as fortes dores nas articulações, que muitas vezes podem estar acompanhadas de edema.

Após a fase inicial a doença pode evoluir em duas etapas subsequentes: fase subaguda e crônica. A chikungunya tem caráter epidêmico com elevada taxa de morbidade associada à artralgia persistente, tendo como consequência a redução da produtividade e da qualidade de vida.

A maioria dos indivíduos infectados pelo CHIKV desenvolve sintomas, alguns estudos mostram que até 70% apresentam infecção sintomática. Esses valores são altos e significativos quando comparados às demais arboviroses.

Alguns pacientes evoluem com persistência das dores articulares após a fase aguda, caracterizando o início da fase subaguda, com duração de até três meses. Quando a duração dos sintomas persiste além dos três meses atinge a fase crônica.

A poliartralgia tem sido descrita em mais de 90% dos pacientes com chikungunya na fase aguda. Essa dor normalmente é poliarticular, bilateral e simétrica, mas pode haver assimetria. Acomete grandes e pequenas articulações e abrange com maior frequência as regiões mais distais. Pode haver edema, e este, quando presente, normalmente está associado à tenossinovite. O exantema normalmente é macular ou maculopapular, acomete cerca de metade dos doentes e surge, normalmente, do segundo ao quinto dia após o início da febre crônica.

O sintoma mais comum nesta fase crônica é o acometimento articular persistente ou recidivante nas mesmas articulações atingidas durante a fase aguda, caracterizado por dor com ou sem edema, limitação de movimento, deformidade e ausência de eritema. Normalmente, o acometimento é poliarticular e simétrico, mas pode ser assimétrico e monoarticular.

Em frequência razoável são vistas manifestações decorrentes da síndrome do túnel do carpo, tais como dormência e formigamento das áreas inervadas pelo nervo mediano.

A velocidade de hemossedimentação e a Proteína C-Reativa encontram-se geralmente elevadas, podendo permanecer assim por algumas semanas.

O diagnóstico diferencial de chikungunya é feito com outras doenças febris agudas (arboviroses), como dengue e Zika-vírus.

 O uso de corticoide é indicado para a doença na sua fase subaguda ou crônica, com dor moderada a intensa.

A medicação padrão para uso oral é a prednisona, apesar de inexistência de estudos de comparação de eficácia, nas fases crônicas podemos iniciar, metotrexato, hidroxicloroquina, sulfassalazina.

Em caso de artropatia inflamatória incapacitante, alguns pacientes necessitarão iniciar medicamentos imunobiológicos, inibidores do anti-TNF para controle da doença.

O tratamento fisioterápico deve ser considerado desde a fase aguda da chikungunya, prevenindo sequelas e deformidades, bem como aliviando a dor nas fases crônicas da doença.

A prevenção da doença com a conscientização da população, evitando acúmulo de água parada, bem como evitando acúmulo de entulhos e manter caixas d’água fechadas, são fundamentais para o controle das arboviroses (Chikungunya, Dengue e Zika-Vírus).

Todos os caso de Febre Chikungunya devem ser notificados a Vigilância Epidemiológica.

 

quinta-feira, 22 de abril de 2021

O que são antígenos e anticorpos?

 

O que são antígenos e anticorpos?

Um antígeno é uma molécula ou estrutura molecular estranha ao organismo que, uma vez introduzida no corpo, desencadeia uma resposta imunológica. Os antígenos são proteínas, peptídeos (cadeias de aminoácidos) ou polissacarídeos (cadeias de monossacarídeos) encontrados nos envoltórios de vírus, bactérias, fungos, protozoários e vermes parasitas. Lipídeos e ácidos nucleicos só se tornam antígenos quando combinados com proteínas e polissacarídeos. Um antígeno pode se originar de dentro do próprio corpo ou vir do ambiente externo.

Como funciona o mecanismo imunológico antígenos-anticorpos?

O funcionamento do sistema imunológico baseia-se nas relações antígeno e anticorpo. Ele responde ao antígeno produzindo uma substância chamada de anticorpo, que é específica para aquele antígeno. O anticorpo tem a função de eliminar os efeitos do antígeno. Cada anticorpo produzido é capaz de reconhecer e ligar-se especificamente ao antígeno que lhe deu origem, impedindo, assim, a ação dele.

Os antígenos podem ser:

  1. Antígenos exógenos, que entraram no corpo vindos de fora, por inalação, ingestão ou injeção, por exemplo. A resposta do sistema imunológico aos antígenos exógenos é frequentemente subclínica. Alguns antígenos começam como exógenos e depois se tornam endógenos (por exemplo, os vírus intracelulares).
  2. Antígenos endógenos, gerados dentro das células normais do organismo como resultado do metabolismo celular normal ou por causa de infecção viral ou bacteriana intracelular.
  3. Autoantígenos, que geralmente é uma proteína própria ou complexo de proteínas e que é reconhecida pelo sistema imunológico como estranha em pacientes que sofrem de uma doença autoimune específica. Em condições normais, essas proteínas próprias não deveriam ser alvo do sistema imunológico, mas, em doenças autoimunes, elas atacam o organismo.
  4. Neoantígenos, que são aqueles que estão totalmente ausentes do genoma humano normal.
  5. Antígenos virais associados a alguns tipos de câncer, como o câncer cervical e de cabeça e pescoço.

Soros e vacinas

Existem várias tecnologias para a produção de vacinas mas em geral elas introduzem intencionalmente no organismo uma derivação não patógena do agente causador da infecção, ou o próprio agente morto ou em formas atenuadas, de modo que o organismo produza anticorpos que atuem contra os agentes infecciosos. As vacinas, são, pois, preventivas, e visam produzir anticorpos ANTES que a pessoa tenha sido exposta ao agente patógeno. A vacina para o vírus da gripe sazonal é um exemplo comum.

Os soros, por outro lado, são empregados como tratamento, DEPOIS que a pessoa já adquiriu o antígeno. No caso das vacinas, a imunização é ativa e duradoura; no caso dos soros, em que são injetados anticorpos já prontos, é passiva e o combate ao antígeno é temporário. O soro contra a picada de cobra é um bom exemplo. A pessoa deve tomar o soro contendo anticorpos específicos depois que cobra tenha inoculado seu veneno (antígeno). O soro é, pois, uma forma de cura.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

ORIENTAÇÕES SOBRE VACINAS CONTRA O NOVO CORONOVIRUS PARA PACIENTES COM DOENCAS REUMÁTICAS DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE REUMATOLOGIA

    Uma iniciativa da Comissão de Doenças Endêmicas e Infecciosas da Sociedade Brasileira De Reumatologia (SBR). Este documento visa ORIENTAR e ESCLARECER os pacientes adultos com doenças reumáticas imunomediadas (ou autoimunes), quanto às dúvidas frequentes sobre vacinas contra o novo coronavírus, frente a recente aprovação de 2 vacinas (a do Instituto Butantan e a de Oxford/Instituto Fiocruz) para uso emergencial no Brasil pela ANVISA, nosso órgão regulatório. Como também, à inclusão deste grupo de pacientes entre os prioritários a receber a vacina dentre o grupo de comorbidades, segundo o Informe Técnico da Campanha Nacional de Vacinação Contra a Covid19, do Ministério da Saúde, em sua versão publicada em 19/01/2020. Diversos aspectos são considerados para indicar uma vacina para os pacientes com doenças reumáticas imunomediadas (ou autoimunes), incluindo qual é a doença, se ela está controlada ou não, e se o paciente está usando medicações imunossupressoras, isto é, aquelas que abaixam a imunidade para controlar a doença, mas que podem aumentar o risco de infecções. As doenças reumáticas imunomediadas mais comuns são a artrite reumatoide, as espondiloartrites, a artrite psoriásica, o lúpus, a esclerose sistêmica (esclerodermia), a síndrome de Sjögren, miopatias inflamatórias e as vasculites. AVISO IMPORTANTE: Este documento estará regularmente atualizado. 

1. Tenho uma doença reumática imunomediada. Posso receber a vacina contra o novo coronavírus? A princípio todos devem ser vacinados, embora seja cedo para avaliarmos se a segurança e a “resposta” a estas vacinas são adequadas em pacientes com estas doenças. O ideal é que você converse com seu reumatologista, que vai ponderar com você o melhor momento e a condição mais adequada para que você seja vacinado em segurança e que a vacina tenha o efeito esperado. 

2. Por ter uma doença reumática imunomediada, eu estarei no grupo prioritário para receber a vacina contra o novo coronavírus? Sim, o último Informe técnico do MS (19.01.21) incluiu pacientes imunossuprimidos, inclusive aqueles com doenças reumáticas imunomediadas, no grupo prioritário para a imunização contra o novo coronavírus, dentre os descritos com comorbidades. O ideal, no entanto, é que você converse com o seu reumatologista, que analisará o grau de atividade de sua doença e as medicações de sua rotina, para avaliar a oportunidade mais adequada para que você seja vacinado (a). ‘ 

3. Por ter uma doença reumática que não é imunomediada, como osteoporose, fibromialgia, gota e osteoartrite (artrose), eu estarei no grupo prioritário para receber a vacinação contra o novo coronavírus? Não. Estas enfermidades não foram incluídas pelo Ministério da Saúde nos grupos prioritários para a vacinação, uma vez que não estão associadas a um maior risco de complicações e óbito relacionados a Covid 19. A imunização destes pacientes ocorrerá em conjunto com a população em geral. 

4. Minha doença reumática imunomediada ainda não está controlada. Posso tomar a vacina contra o novo coronavírus? O ideal é que você receba a vacina com a doença controlada ou em remissão. Nestes casos, recomendamos, preferencialmente, que a decisão seja compartilhada com o seu médico reumatologista, reforçando a necessidade de manter as medidas de proteção e distanciamento social. 

5. Estou em uso de medicação imunossupressora ou medicamento biológico. Posso ser vacinado (a)? Nenhuma das vacinas para as quais foram solicitados usos emergenciais na ANVISA e aprovadas contêm o vírus vivo, sendo potencialmente seguras em pacientes em uso de medicações imunossupressoras. No entanto, algumas dessas medicações poderão reduzir a resposta a vacina. Recomendamos que mantenha suas medicações e que, a decisão de vacinar em uso de medicações seja, preferencialmente, compartilhada com o seu médico reumatologista, reforçando a necessidade de manter as medidas de proteção e distanciamento social. 

6. Existe algum tipo de vacina contra o novo coronavírus considerada mais adequada para a minha condição, dentre as aprovadas no Brasil atualmente para uso emergencial? Ambas as vacinas aprovadas para uso emergencial no Brasil poderão ser utilizadas pelos pacientes com doenças reumáticas. Vale ressaltar que ainda não temos disponíveis informações sobre o uso de vacinas nestes pacientes. Uma vez iniciada a vacinação, recomenda-se que as duas sejam feitas com a mesma vacina. 

7. Fui vacinado. Estou protegido a ponto de dispensar o uso das medidas de proteção individual e coletiva como uso de máscara, distanciamento social e higienização das mãos? Não. O fato de ter sido vacinado não significa que você possa interromper as medidas de proteção, como o uso de máscaras faciais, o distanciamento social e a higienização das mãos, até que tenhamos tempo para avaliar a real proteção conferida pela vacina e sua capacidade de conter a disseminação do novo coronavírus. ‘ 

8. Fui vacinado. Posso receber outras vacinas concomitantemente a contra o novo coronavírus? Considerando a falta de estudos, o Ministério da Saúde recomenda um intervalo mínimo de 14 dias entre a vacina contra a COVID-19 e as outras do calendário nacional de vacinação. 

Resumindo: Cada paciente é único e por isso a decisão sobre a vacinação em pacientes com doenças reumáticas deve ser individualizada caso a caso, levando em consideração a idade, o quanto a doença está ativa, as medicações em uso e doenças associadas. 

Seu Reumatologista é o profissional ideal para lhe aconselhar o melhor momento e a condição mais adequada para que você seja vacinado.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

O que é a Artrite Idiopática Juvenil?

Dr. Kléper Jean M. Leopoldino

Sociedade Brasileira de Reumatologia


O que é a Artrite Idiopática Juvenil?

A Artrite Idiopática Juvenil, também denominada Artrite Reumatoide Juvenil, é uma doença inflamatória crônica que acomete as articulações e outros órgãos, como a pele, os olhos e o coração. A principal manifestação clínica é a artrite, caracterizada por dor, aumento de volume e de temperatura de uma ou mais articulações. Cabe ressaltar que em algumas crianças a dor é mínima ou até mesmo inexistente. Caracteristicamente ela inicia sempre antes dos 17 anos de idade.

É uma doença frequente?

A incidência da Artrite Idiopática Juvenil é desconhecida em nosso país, mas dados provenientes de países da América do Norte e da Europa indicam que cerca de 0,1 a 1 em cada 1.000 crianças têm essa doença.

O que causa a Artrite Idiopática Juvenil?

A causa exata da Artrite Idiopática Juvenil ainda não é conhecida. Fatores imunológicos, genéticos e infecciosos estão envolvidos. Estudos recentes mostram que existe uma certa tendência familiar e que alguns fatores externos, como certas infecções virais e bacterianas, o estresse emocional e os traumatismos articulares podem atuar como desencadeantes da doença.
A artrite não é uma doença infecto-contagiosa e os pacientes podem (e devem) freqüentar normalmente creches, escolas, clubes e piscinas.

Como se diagnostica a doença?

O diagnóstico da Artrite Idiopática Juvenil é clínico e baseia-se na presença de artrite em uma ou mais articulações com duração igual ou maior a 6 semanas. Várias doenças, como por exemplo, as infecções, devem ser pesquisadas e descartadas, uma vez que a artrite é manifestação comum em várias doenças não reumáticas. Além da dor e da inflamação articular pode ser observada uma certa dificuldade na movimentação ao acordar (rigidez matinal), fraqueza ou incapacidade na mobilização das articulações, além de febre alta diária (> 39º C) por períodos maiores do que 2 semanas. Não existem exames laboratoriais específicos para esta doença. Nos casos de dúvida diagnóstica a opinião de um especialista pode ser de grande auxílio.

Quais os tipos mais comuns de Artrite Idiopática Juvenil?

Existem 3 tipos mais comuns: pauciarticular (ou oligoarticular), poliarticular e sistêmico . No tipo pauciarticular são acometidas até 4 articulações, sendo os joelhos e os tornozelos as mais freqüentes. Crianças com este tipo de doença devem fazer avaliações oftalmológicas freqüentes (a cada 3 ou 4 meses), uma vez que a úvea (o colorido dos olhos) pode estar inflamada sem que haja qualquer sinal visível. No tipo poliarticular 5 ou mais articulações são envolvidas, com destaque para os joelhos, tornozelos, punhos, cotovelos e pequenas articulações das mãos e dos pés. Pode haver febre intermitente e o exame laboratorial Fator Reumatoide está presente em cerca de 10% dos pacientes. O tipo sistêmico tem caráter insidioso e caracteriza-se pela presença de artrite associada à febre alta em um ou dois picos diários (= 39º C), erupção na pele (rash cutâneo), gânglios, serosite (inflamação da pleura e do pericárdio) e aumento de fígado e baço ao exame clínico.
Alguns pacientes, especialmente aqueles com o tipo pauciarticular e com fator antinúcleo (FAN) positivo, podem apresentar uveíte crônica, ou seja, uma inflamação em um ou nos dois olhos. A uveíte é, geralmente, assintomática e podem ser observadas complicações como glaucoma, catarata e até mesmo diminuição da visão, especialmente quando o diagnóstico é tardio. Daí a importância da detecção precoce através de exames oftalmológicos periódicos (biomicroscopia), a cada 3 ou 4 meses. A uveíte pode aparecer antes, simultaneamente ou anos depois da atrite.

Qual o tratamento da Artrite Idiopática Juvenil?

Uma boa relação entre médico, paciente e familiares é fundamental para que o tratamento tenha sucesso, uma vez que a sua duração é prolongada. Deve ser individualizado e envolve educação sobre a doença, controle da inflamação e da dor através do uso de medicamentos e prevenção de deformidades. A reabilitação (fisioterapia) é muito importante desde as fases iniciais da doença e em alguns casos pode ser necessário o acompanhamento psicológico. O início do tratamento deve ser precoce; nos casos de demora pode haver comprometimento da cartilagem articular, acarretando deformidades e limitações físicas irreversíveis.
Cada tipo de Artrite Idiopática Juvenil tem um tratamento específico e o esquema terapêutico pode variar de um paciente para o outro, de acordo com as suas manifestações clínicas. Os medicamentos utilizados inicialmente são os antiinflamatórios não-hormonais (aspirina, naproxeno e ibuprofeno), úteis no alívio da dor. São utilizados diariamente e recomendam-se sua ingestão após as refeições para evitar efeitos indesejáveis como náuseas, vômitos e dor epigástrica.
Outros remédios, chamados drogas de base (ou de segunda linha), são acrescentados gradualmente nos casos de inflamação persistente, ou seja, má resposta aos antiinflamatórios não-hormonais e visam controlar e até mesmo cessar a inflamação. Os mais utilizados são a hidroxicloroquina (ou o difosfato de cloroquina), a sulfassalazina e o metotrexato.
A hidroxicloroquina é indicada para os pacientes com o tipo pauciarticular sem comprometimento de punhos, tornozelos e quadril e que não respondem bem ao antiinflamatório não-hormonal. É utilizada por via oral uma vez ao dia e seus principais efeitos adversos são oculares, como por exemplo, alterações de pigmentação da retina. Pacientes em uso deste medicamento devem realizar exames oftalmológicos semestrais, que incluem fundo de olho, campimetria e diferenciação de cores.
A sulfassalazina é recomendada no tratamento de meninos pré-adolescentes e adolescentes com um tipo específico de doença pauciarticular, caracterizado por artrite e entesite (inflamação nos pontos de inserção dos tendões nos ossos), com ou sem comprometimento de articulações sacroilíacas ou coluna vertebral. É administrada duas vezes ao dia e requer a realização de exames hematológicos periódicos.
O metotrexato (MTX) é o medicamento mais utilizado para o controle da artrite devido à sua eficácia, facilidade posológica (uma vez por semana por via oral ou subcutânea), segurança e baixo custo. Recomenda-se a realização de exames laboratoriais periódicos (hemograma e enzimas hepáticas) a cada 2 ou 3 meses para a detecção precoce de possíveis efeitos adversos, como a anemia e a hepatite medicamentosa. O MTX está indicado em todos os pacientes com o tipo poliarticular e para aqueles com o tipo pauciarticular com comprometimento de quadris, punhos e tornozelos, e que não respondem bem aos antiinflamatórios não-hormonais.
A ciclosporina é um imunossupressor muito útil no tratamento de pacientes com o tipo sistêmico cujas manifestações da doença sistêmica sejam resistentes ou dependentes de altas doses de corticóide.
A ciclofosfamida por via endovenosa é pouco utilizada e está indicada somente naqueles pacientes que não respondem as medicações acima citadas. As avaliações clínicas e os exames laboratoriais (sangue e urina) devem ser periódicos.
Os corticosteróides em doses altas (1 a 2 mg/kg/dia) estão indicados nos pacientes com o tipo sistêmico cuja febre ou pericardite não responde ao antiinflamatório não hormonal. Podem ser utilizados também por via endovenosa (metilprednisolona) em doses mais altas e por um período mais curto, minimizando os possíveis efeitos colaterais como ganho rápido de peso, estrias, hipertensão arterial, aumento de pelos, maior suscetibilidade a infecções, osteoporose e retardo de crescimento. Os corticosteróides não devem ser suspensos ou reduzidos sem orientação médica, sob risco de graves complicações. Recomenda-se evitar o uso excessivo de sal e restringir a ingestão de alimentos excessivamente calóricos. Os corticosteróides por via intra-articular (infiltração) trazem benefícios para alguns pacientes com poucas articulações acometidas. Outras indicações dos corticosteróides são a uveíte, e nestes casos na forma de gota oftálmica, e eventualmente em doses baixas (5 a 7,5 mg/dia) diárias quando a artrite da criança é muito grave, dolorosa e rapidamente progressiva.
As novas terapias biológicas (infliximabe, etanercepte e adalimumabe) são recomendadas para os pacientes com má resposta às medicações acima citadas. São utilizados por via parenteral (subcutânea ou endovenosa) e podem ser observados efeitos adversos como hipersensibilidade (fenômenos alérgicos no local da aplicação ou sistêmicos) e maior suscetibilidade a infecções, especialmente virais. Pacientes que recebem infliximabe devem ser investigados previamente para a tuberculose através de radiografia de tórax e PPD (teste de mantoux). Um fator que restringe o uso destes medicamentos é o custo elevado.
O uso de um ou mais medicamentos implica em um seguimento cuidadoso e periódico, com consultas e exames laboratoriais seriados, com o objetivo de avaliar a inflamação além de detectar e tratar possíveis efeitos adversos. De um modo geral deve-se evitar a aplicação de vacinas de vírus vivos em pacientes em uso de corticosteróides e imunossupressores. Converse sempre com o seu médico antes de administrar vacinas no seu filho.

Quanto tempo dura o tratamento?

Em muitos pacientes a doença é controlada até o final da adolescência. No entanto, alguns podem apresentar doença crônica com períodos de melhora e piora que persistem até vida adulta. Nestes casos deve ser feita uma transição lenta para o Reumatologista de adultos. Muitos adolescentes são “rebeldes” ao tratamento e devem ser conscientizados quanto à importância do uso contínuo de medicamentos. A responsabilidade, que sempre é dos pais ou responsáveis até os 18 anos de idade, deve ser transferida gradualmente ao paciente de maneira firme e segura.

O que pode acontecer se o tratamento for interrompido?

A interrupção do tratamento sem orientação médica pode ter conseqüências sérias e irreversíveis, como piora da inflamação, deformidades articulares irreversíveis, destruição da cartilagem e piora da capacidade física. Os pais devem checar a ingestão dos medicamentos e conversar com os filhos sobre a doença, reforçando a importância do tratamento, especialmente nos casos de pacientes adolescentes.
9. Qual a importância da fisioterapia e dos exercícios físicos?A fisioterapia é fundamental para a manutenção e recuperação da mobilidade das articulações acometidas e deve ser iniciada assim que possível. Seu principal objetivo é reabilitar o paciente para a realização das atividades diárias rotineiras, através do fortalecimento dos músculos, alongamento de tendões e aumento da amplitude de movimento articular. Métodos que utilizam calor e frio são válidos para o controle da dor, especialmente nas fases iniciais da doença.
O fisioterapeuta poderá orientar a família na utilização de adaptações para uso em tarefas diárias (alimentação, escrita, etc) e na realização de exercícios em casa. As crianças devem ser estimuladas a ter uma vida mais saudável. A prática de esportes deve ser supervisionada por um especialista em reabilitação e as articulações protegidas contra possíveis traumatismos. Esportes com impacto como o futebol e o vôlei devem ser evitados nas fases iniciais do tratamento, enquanto a natação deve ser estimulada. No entanto esta modalidade esportiva não é disponível para grande parte da nossa população.

Aspectos emocionais da criança com artrite.

A doença crônica tem um impacto em várias dimensões da vida da criança e dos familiares: aspectos físicos, emocionais, sociais, educacionais e econômicos. Com isto a dinâmica da família pode alterar-se significativamente. A troca de informações entre o paciente, seus familiares, o reumatologista pediátrico e os demais profissionais relacionados (fisioterapeuta e psicólogo) é fundamental para que este impacto seja minimizado.
Os pais devem estar atentos, uma vez que poderão ser observadas modificações no comportamento da criança com artrite, especialmente devido à presença da dor e diminuição da capacidade física. Algumas crianças podem ficar tristes enquanto outras podem sentir raiva de intensidade variável. Em alguns casos pode ser observado sentimento de culpa nos pais ou nos irmãos, que satisfazem todas as vontades dos pacientes, levando a um “ganho secundário”. Este processo dificulta o retorno da criança com artrite para uma “vida normal”. As crianças com artrite devem ser estimuladas a retomar o mais breve possível a sua vida social e escolar. Conversas francas entre todos os membros da família são de grande ajuda. Em alguns casos é indicado o acompanhamento por especialista em saúde mental (psicólogo ou psiquiatra) dos pacientes, dos pais ou de ambos.
No âmbito escolar, o professor deve ser orientado sobre a doença. As necessidades pessoais deverão ser avaliadas e respeitadas. Uma vez que a incapacidade física tem melhora lenta, as atividades intelectuais e artísticas devem ser estimuladas e valorizadas.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Cuidados com as vacinas da Febre Amarela e Sarampo

       
A Sociedade Brasileira de Reumatologia alerta para  os sintomas e diagnóstico da febre amarela e Sarampo, doenças emergentes no Brasil nos últimos anos, com alto índice de mortalidade, e também para a importância da vacinação. Entretanto, os pacientes reumatológicos, principalmente os tratados com imunossupressores, devem ter atenção especial, e somente ser imunizados com indicação do seu Reumatologista, responsável pelo seu tratamento. 
        As vacinas do Sarampo e Febre Amarela são vacinas de vírus vivos e atenuados, sendo necessária a avaliação do Reumatologista para liberação, sempre avaliando os riscos e benefícios, da aplicação da vacina. 
        As vacinas da Gripe e Pneumonia (Pneumo 13 e 23), por serem vacinas de vírus inativos, podem ser administradas nos pacientes reumatológicos, para prevenção da gripe e doenças causadas pelo Pneumococo (Pneumonia, sinusites,etc..), sempre com avaliação médica, previamente a administração das vacinas.


terça-feira, 3 de setembro de 2019

Eventos


Em setembro participarei do 36º Congresso Brasileiro de Reumatologia, o maior evento da Reumatologia Brasileira, que será realizado em Fortaleza, Ceará.
No evento serão discutidos temas sobre atualização de tratamento e novas pesquisas referentes as doenças reumatológicas.


terça-feira, 13 de agosto de 2019

O que é Síndrome de Sjogren?




Sociedade Brasileira de Reumatologia
Dr. Kléper Jean Medeiros Leopoldino


A Síndrome de Sjögren (SS) é uma doença auto-imune que se caracteriza principalmente pela manifestação de secura ocular e na boca associadas à presença de auto-anticorpos ou sinais de inflamação glandular. Algumas células brancas (chamadas de linfócitos) invadem vários órgãos e glândulas, principalmente as glândulas lacrimais e salivares, produzindo um processo inflamatório que acaba por prejudicá-los, impedindo suas funções normais.
Existem outras causas de secura na boca e nos olhos?
Se uma pessoa apresenta olho seco ou boca seca, ela deverá ser avaliada para as possíveis causas desses sintomas. Medicamentos (inclusive os usados para o tratamento da pressão alta, depressão, resfriados e alergias), infecções e outros problemas oculares também podem causar esses mesmos sintomas. Será necessária a avaliação de um médico Oftalmologista para determinar se realmente há falta de lágrima e sinais de inflamação na córnea em decorrência desta secura. Se essas alterações se confirmarem, o paciente deve ser encaminhado a um Reumatologista para avaliação do diagnóstico da Síndrome de Sjogren (SS).
Quais são as outras manifestações clínicas da Síndrome de Sjögren?
Os pacientes com “SS” também podem apresentar secura na pele, nariz e vagina. Podem apresentar fadiga, artralgias e artrites. Além disso, outros órgãos do corpo, como os rins, pulmões, vasos, fígado, pâncreas e cérebro também podem ser afetados. Esta doença é mais comum em mulheres de meia idade, mas também pode ocorrer em homens e em qualquer idade.
Como é feito o diagnóstico da Síndrome de Sjögren?
Para a confirmação do diagnóstico, além de todos os sintomas já mencionados o paciente deverá apresentar alterações laboratoriais (exames de sangue), radiológicos e/ou anátomo-patológicos (biópsia das glândulas salivares menores feita no lábio) e/ou de medicina nuclear (cintilografia das glândulas parótidas).
O que é a Síndrome de Sjögren Primária?
A Síndrome de Sjögren Primária ocorre quando a Síndrome de Sjögren (SS) ocorre de forma isolada, sem a presença de outra doença auto-imune.
O que é a Síndrome de Sjögren Secundária?
A Síndrome de Sjögren Secundária ocorre quando os sintomas da “SS” são acompanhados de uma outra doença auto-imune como a Artrite Reumatóide, o Lúpus Eritematoso Sistêmico ou Esclerodermia.
Como é o tratamento da Síndrome de Sjögren?
Ainda não existe uma cura definitiva para esta doença, mas o diagnóstico e intervenções precoces podem melhorar em muito o prognóstico. O tipo do tratamento vai depender dos sintomas (que podem ser bastante variados) e da sua gravidade. No caso do paciente somente apresentar secura nos olhos e boca, eventualmente, poderão ser utilizados como tratamento somente lágrimas artificiais e substitutos de saliva. Remédios anti-inflamatórios, corticóides e/ou imunossupressores poderão ser utilizados quando houver manifestação mais graves, objetivando melhora da inflamação e evitando seqüelas.


quinta-feira, 25 de julho de 2019

Orientações sobre Espondilite Anquilosante

Sociedade Brasileira de Reumatologia
Dr. Kléper Jean Medeiros Leopoldino

Orientações sobre Espondilite Anquilosante

1. O que é a espondilite anquilosante?
     A espondilite anquilosante é um tipo de inflamação que afeta os tecidos conjuntivos, caracterizando-se pela inflamação das articulações da coluna e das grandes articulações, como quadris, ombros e outras regiões. Embora não exista cura para a doença, o tratamento precoce e adequado consegue tratar os sintomas - inflamação e dor –, estacionar a progressão da doença, manter a mobilidade das articulações acometidas e manter uma postura ereta.

2. O que causa a espondilite anquilosante?
     A causa é desconhecida. Os especialistas sabem que a doença é genética e é mais frequente em pessoas que herdam um determinado marcador genético, denominado HLA-B27. Cerca de 90% dos pacientes brancos com espondilite anquilosante são HLA-B27 positivos. A teoria mais aceita é a de que a doença possa ser desencadeada por uma infecção intestinal naquelas pessoas geneticamente predispostas a desenvolvê-las, ou seja, portadoras do HLA-B27. A espondilite anquilosante não é transmitida por contágio ou por transfusão sanguínea.

3. Qual a prevalência da espondilite anquilosante?
     A espondilite anquilosante tende a ocorrer em famílias, afeta três vezes mais os homens do que as mulheres e surge normalmente entre os 20 e 40 anos. Cerca de 20% dos indivíduos com HLA-B27 terão espondilite anquilosante, embora a maioria nunca será diagnosticada como tendo a doença, pois ela se apresentará de forma branda. Como o HLA-B27 está presente em 7% a 10% da população.

4. Quais são os sintomas da espondilite anquilosante?
     Dores na coluna que surgem de modo lento ou insidioso durante algumas semanas, associadas à rigidez matinal da coluna, que diminui de intensidade durante o dia. A dor persiste por mais de três meses, melhora com exercício e piora com repouso. No início, a espondilite anquilosante costuma causar dor nas nádegas, possivelmente se espalhando pela parte de trás das coxas e pela parte inferior da coluna. Um lado é geralmente mais doloroso do que o outro. Essa dor tem origem nas articulações sacroilíacas (entre o sacro e a pélvis). Alguns pacientes sentem-se globalmente doentes –sentem-se cansados, perdem apetite e peso e podem ter anemia. A inflamação das articulações entre as costelas e a coluna vertebral pode causar dor no peito, que piora com a respiração profunda, sentida ao redor das costelas, podendo ocorrer diminuição da expansibilidade do tórax durante a respiração profunda. Os indivíduos que apresentam limitação significativa da expansibilidade do tórax não devem de forma alguma fumar, pois seus pulmões, que já não expandem normalmente, estariam ainda mais susceptíveis a infecções.

5. Quais são os órgãos e tecidos afetados pela doença?
     Articulações da coluna vertebral: inflamação das articulações da coluna que causa dores e rigidez matinal. A doença começa nas juntas entre o sacro e a pélvis, denominadas juntas sacroilíacas. Outras articulações: inflamação das articulações dos quadris, ombros, joelhos e tornozelos são as partes afetadas com maior frequência. Algumas vezes, ocorrem locais sensíveis ou dolorosos em ossos que não fazem parte da coluna, como o osso do calcanhar, tornando-se desconfortável ficar em pé em chão duro, e o osso ísquio da bacia, tornando as cadeiras duras muito desagradáveis.
Os olhos podem ser acometidos apresentando “olho vermelho” uveíte ou irite. Os pacientes apresentam olhos avermelhados e doloridos, o que deve ser reportado ao médico o mais rapidamente possível, pois pode ocorrer um dano permanente.
A pele pode estar afetada, com a presença de psoríase, uma condição inflamatória comum da pele, caracterizada por episódios frequentes de vermelhidão, coceira e presença de escamas prateadas, secas e espessas.
O intestino pode estar associado a espondilite anquilosante em alguns pacientes e o Intestino: a colite, ou inflamação do intestino, pode estar associada à espondilite anquilosante em alguns pacientes.

6. Como diagnosticar a espondilite anquilosante?
     O diagnóstico da doença é baseado no conjunto de sintomas (dor nas nádegas e dor nas costas) e nos exames de imagem (raios-x, tomografia computadorizada ou ressonância magnética) da bacia, da coluna e das juntas afetadas. O médico faz um histórico e examina as costas (procurando por espasmos musculares, com atenção para a postura e mobilidade) e examinará as outras partes do corpo, procurando pelas evidências da espondilite anquilosante. o diagnóstico da espondilite anquilosante é confirmado pelos exames de imagem acima citados. As alterações características estão nas juntas sacroilíacas, mas podem levar alguns anos para desenvolver-se, podendo não ser notadas na primeira consulta. O médico, provavelmente, o avaliará com relação à anemia e aos testes da velocidade de sedimentação das hemácias (VHS) e proteína C Reativa (PCR), que informam quão ativa a doença está.

7. Como a doença pode progredir?
     A espondilite anquilosante toma diferentes rumos em pessoas diferentes, sendo que dois casos nunca são exatamente iguais. Com o passar do tempo, após a fase ativa em que as juntas estão inflamadas, a doença torna-se bem menos ativa ou mesmo totalmente inativa. Os sintomas podem surgir e desaparecer durante longos períodos. Os ossos das vértebras da coluna crescem, formando pontes entre as vértebras, às vezes envolvendo completamente as juntas, impedindo assim que ela se mova, causando a rigidez denominada anquilose. A coluna lombar geralmente se torna rígida, bem como a região posterior superior do pescoço. É por esta razão que é muito importante que se mantenha uma boa postura. Algumas pessoas podem ter apenas uma sé- rie de leves dores e desconfortos, durante vários meses. Isso parece ser mais comum nas mulheres com espondilite aquilosante. Nesse estágio, a doença pode tanto desaparecer, como pode prosseguir causando rigidez na coluna dorsal ou mesmo no pescoço.

08. Como é o tratamento da espondilite anquilosante?
     Não há cura para a espondilite anquilosante e, embora a doença tenda a ser menos ativa conforme a idade avança, o paciente deve estar consciente de que o tratamento deve durar para sempre. O tratamento objetiva o alívio dos sintomas e a melhora da mobilidade da coluna onde estiver diminuída, permitindo ao paciente ter uma vida social e profissional normal. O tratamento engloba uso de medicamentos, fisioterapia, correção postural e exercícios, que devem ser adaptados a cada paciente. No tratamento medicamentoso convencional utilizam-se analgésicos para aliviar a dor. Existem várias substâncias capazes de reduzir ou eliminar a dor, que permitem ao paciente uma boa noite de sono e seguir um programa de exercícios. Os remédios podem ser sintomáticos como os analgésicos e os relaxantes musculares, ou então modificadores da evolução da doença, como a sulfasalazina e o metotrexato. Como existem estudos indicando que o uso contínuo de anti-inflamatórios não-hormonais pode reduzir a progressão radiológica da espondilite anquilosante, estes medicamentos também são considerados modificadores de doença.

09. E o que são as recentes terapias biológicas?
     Terapias biológicas representam um significativo avanço no tratamento dos portadores de 16 espondilite anquilosante, que não responderam ao tratamento convencional. A terapia biológica consiste em injeções subcutâneas ou intravenosas de medicações que combatem a dor, inflamação e as alterações da imunidade nas doen- ças acima mencionadas. Consiste de medicações à base de anticorpos monoclonais, proteínas de fusão celular, anti-interleucinas e bloqueadores da coestimulação do linfócito T, que se comportam como verdadeiros mísseis teleguiados que inativam, com precisão e segurança, determinados alvos constituídos por células, citocinas e mediadores imunes presentes de forma anormal na circula- ção dos portadores de espondilite anquilosante.

10. Qual é a importância dos exercícios na espondilite?
     O propósito dos exercícios é conscientizá-lo de sua postura, especialmente com relação às suas costas, e encorajar o movimento livre de algumas juntas, particularmente ombros e quadris. É importante fortalecer os músculos, pois o movimento reduzido, mesmo por um curto período de tempo, enfraquece-os, podendo levar muito tempo para reconstruí-los. Como parte do tratamento da espondilite anquilosante, é importante que ele cuide de sua saúde e postura. Isso inclui evitar o excesso de peso e de cansaço por longos períodos de trabalho ou por excesso de compromissos. O lema para o tratamento, o qual cada paciente deveria aprender e obedecer, é: É FUNÇÃO DO MÉDICO ALIVIAR A DOR E É FUNÇÃO DO PACIENTE PRATICAR EXERCÍCIOS E MANTER BOA POSTURA.

11. O paciente pode praticar qualquer tipo de esporte?
    Muitos pacientes perguntam quais atividades esportivas são apropriadas para eles. A atividade ideal é a natação, de preferência em piscina aquecida, pois utiliza todos os músculos e juntas sem friccioná-los. Esportes de contato não são indicados, pois as juntas podem ser danificadas. Andar de bicicleta também é uma forma de exercício bastante benéfica, pois mantém as juntas ativas, dando maior força às pernas. Além disso, é um bom exercício de respiração e auxilia na expansibilidade do tórax, por vezes diminuída pela espondilite anquilosante.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Orientações sobre Fibromialgia


Sociedade Brasileira de Reumatologia
Dr. Kléper Jean Medeiros Leopoldino

Orientações sobre Fibromialgia:

1. O que é Fibromialgia?
     A Fibromialgia é uma síndrome clínica que se manifesta, principalmente, com dor no corpo todo.  Muitas vezes fica difícil definir se a dor é nos músculos ou nas articulações. Os pacientes costumam dizer que não há nenhum lugar do corpo que não doa. Junto com a dor, surgem sintomas como fadiga (cansaço), sono não reparador (a pessoa acorda cansada, com a sensação de que não dormiu) e outras alterações como problemas de memória e concentração, ansiedade, formigamentos/ dormências, depressão, dores de cabeça, tontura e alterações intestinais. Uma característica da pessoa com Fibromialgia é a grande sensibilidade ao toque e à compressão de pontos nos corpos.

2. Qual é a causa da Fibromialgia?
     Não existe ainda uma causa definida, mas há algumas pistas de porque as pessoas têm Fibromialgia. A Fibromialgia é bastante frequente no Brasil está presente em cerca de 2% a 3% das pessoas, acomete mais mulheres que homens e costuma surgir entre os 30 e 55 anos. Os estudos mostram que os pacientes apresentam uma sensibilidade maior à dor do que pessoas sem Fibromialgia. Na verdade, seria como se o cérebro das pessoas com Fibromialgia interpretasse de forma exagerada os estímulos, ativando todo o sistema nervoso para fazer a pessoa sentir mais dor. A Fibromialgia também pode aparecer depois de eventos graves na vida de uma pessoa, como um trauma físico, psicológico ou mesmo uma infecção grave. O mais comum é que o quadro comece com uma dor localizada crônica, que progride para envolver todo o corpo. O motivo pelo qual algumas pessoas desenvolvem Fibromialgia ainda é desconhecido. Mas é uma dor diferente, em que não há lesão no corpo, e, mesmo assim, a pessoa sente dor. Mesmo não sabendo a causa exata, sabemos que algumas situações provocam piora das dores em quem tem Fibromialgia. Alguns exemplos são: excesso de esforço físico, estresse emocional, alguma infecção, exposição ao frio, sono ruim ou trauma.

3. Quais são os sintomas da Fibromialgia?
     O principal sintoma da Fibromialgia é a dor generalizada (dor no corpo todo), percebida especialmente nos músculos. É muito comum que o paciente sinta dificuldade de definir onde está a dor, e muitos referem-na como sendo "nos ossos", "formigamento", nas "juntas" ou "nas carnes". Como os músculos estão presentes por todo o corpo, este é o motivo da confusão. Importante notar que não só o paciente refere dor espontânea, mas também bastante dor ao toque. As alterações do sono são extremamente comuns na Fibromialgia. Muitas vezes o paciente até dorme um bom número de horas, mas acorda cansado - é o famoso "sono não reparador" da Fibromialgia. Também pode ocorrer insônia, sensação de pernas inquietas antes de dormir e movimentos da perna durante o sono.

4. Por que algumas pessoas não acreditam na Fibromialgia?
     A Fibromialgia é uma doença em que não existe uma lesão dos tecidos - não há inflamação ou degeneração. Com estudos mais modernos, verificou-se que a dor na Fibromialgia é causada por uma amplificação dos impulsos dolorosos, como se a pessoa tivesse um "controle de volume" desregulado. Isso só é visto em exames muito específicos, em pesquisas científicas. Na prática clínica, não há como provar que a pessoa está sentindo dor crônica - a reação corporal é muito diferente do que na dor aguda. A reação à dor nota-se na presença de depressão, afastamento social, alteração do sono e cansaço. Tudo isso leva algumas pessoas, até mesmo profissionais de saúde, a terem dúvidas se os sintomas são reais ou não.

5. Por que se fala tanto de depressão quando se toca no assunto Fibromialgia?
     Tanto a ansiedade quanto a depressão influenciam negativamente a Fibromialgia, de forma semelhante ao que ocorre em outras doenças. A depressão é muito frequente na Fibromialgia, estando presente em até 50% dos pacientes. Desta forma, frequentemente observamos pacientes com Fibromialgia e depressão. Ambas as condições atuam como um círculo vicioso, piorando o quadro. O paciente deprimido também apresenta distúrbio do sono e fadiga, sintomas comuns na Fibromialgia. É importante ressaltar, no entanto, que uma parcela considerável de pacientes com Fibromialgia não apresenta depressão, de forma que ambas, depressão e Fibromialgia, são condições clínicas diferentes.

6. Por que a Fibromialgia piora quando ficamos tristes ou deprimidos?
     A interpretação da dor no cérebro sofre varias influências, dentre elas das emoções. As emoções positivas, como alegria e felicidade, podem diminuir o desconforto da dor e as negativas, como tristeza e infelicidade, podem aumentar este desconforto. Em parte isto é explicado pelos neurotransmissores (substâncias químicas cerebrais que conectam as células nervosas), como a serotonina e a noradrenalina, que têm papel importante na interpretação da dor e na depressão. Desta forma, pacientes com Fibromialgia que não estejam bem tratados do quadro depressivo terão níveis mais elevados de dor.

7. Como é feito o diagnóstico da Fibromialgia?
     O diagnóstico da Fibromialgia é essencialmente clínico. O médico durante a consulta obtém algumas informações que são essenciais. Os sintomas mais importantes são dor generalizada, dificuldades para dormir ou acordar cansado e sensação de cansaço ou fadiga durante todo o dia. Alguns outros problemas podem acompanhar a Fibromialgia como depressão, ansiedade, alterações intestinais ou urinárias, dor de cabeça frequente, entre outros. Ao examinar, o médico pode observar uma grande sensibilidade em pontos especificos dos musculos. Estes pontos são conhecidos como pontos dolorosos. Hoje não se valoriza muito a quantidade de pontos que estão dolorosos, mas a sua presença ajuda nesse diagnóstico.

8. Existe algum exame que faça o diagnóstico da Fibromialgia?
     Em relação ao diagnóstico, não existem exames para Fibromialgia. O diagnóstico é
totalmente clínico e feito através dos sintomas e sinais. O seu médico pode pedir exames para excluir doenças que se apresentam de forma semelhante à Fibromialgia ou ainda para detectar outros problemas que podem ocorrer junto e influenciar na sua evolução.

9. Existe cura para a Fibromialgia? A Fibromialgia pode me deixar com alguma deficiência?
     A Fibromialgia é uma condição médica crônica, significando que dura por muito tempo, possivelmente por toda a vida. Entretanto, pode ser confortador saber que, embora não exista cura, a Fibromialgia não é uma doença progressiva. Ela nunca é fatal e não causa danos às articulações, aos músculos, ou órgãos internos. Embora ainda não tenha sido descoberta a cura para Fibromialgia, em muitas pessoas ela melhora com o tempo, e há casos nos quais os sintomas retrocedem quase totalmente. A Fibromialgia não deve ser encarada como uma doença que necessita de tratamento, mas sim como uma condição clínica que requer controle. Isso porque, na pessoa predisposta, suas manifestações ocorrem ao longo da vida, na dependência de uma gama de fatores físicos e emocionais. O tratamento da fibromialgia depende muito do esforço do paciente e o o médico deve atuar mais como um guia do que somente uma pessoa que fornece remédios. É muito importante que a pessoa com Fibromialgia entenda que a atividade física regular terá que ser mantida para o resto da vida, pelo risco de a Fibromialgia voltar se esta atividade for interrompida. Uma questão central para os fibromiálgicos é a dificuldade para a execução de tarefas, profissionais ou do cotidiano. Os pacientes mostram-se extremamente inseguros quanto ao desempenho pessoal, gerando um estado crônico de revolta em relação a sua saúde. Queixam-se frequentemente da redução da qualidade do seu trabalho, com consequente influência em sua vida profissional e mesmo na renda familiar.

10. Devo fazer algum tipo de atividade física?
     Sim. Além dos muitos benefícios à saúde, a atividade física é reconhecidamente um método não medicamentoso de grande impacto na melhora da dor, do humor e da qualidade de vida dos pacientes com Fibromialgia. Constitui-se, assim, uma intervenção fundamental, aliada às medidas medicamentosas, para o tratamento da Fibromialgia.

11. Será que eu não vou piorar se fizer atividade física? Como devo fazê-la?
     Os exercícios físicos são seguros. Antes de iniciá-los, no entanto, é importante realizar uma avaliação funcional com um profissional especializado na área. Os exercícios são classificados em aeróbicos, de fortalecimento e de alongamento. Dentre esses, os aeróbicos como caminhadas, hidroginástica e natação são os mais indicados para melhora do quadro de dor, distúrbios do sono, fadiga, depressão e ansiedade. Os exercícios de fortalecimento e de alongamento resistidos, como musculação e pilates são os mais indicados e podem ser prescritos como forma segura e eficaz para o tratamento não-medicamentoso da Fibromialgia. Dessa maneira, a atividade física deve ser sempre iniciada de forma lenta, com incrementos progressivos ao longo do programa. O ideal é que seja realizada de três a cinco vezes por semana, durante 30 a 60 minutos. Por último, a prática de exercícios físicos deve ser prazerosa e parte do estilo de vida de cada um. O importante é realizá-lo com regularidade.

12. Por que os antiinflamatórios ou outros remédios para dor não me ajudam?
     Os anti-inflamatórios e os analgésicos simples são excelentes medicamentos para tratar as dores associadas a dano tecidual. Nesta situação temos um dano no tecido muscular que origina a dor e o anti-inflamatório atuará para tratá-la e sanar a inflamação muscular. Na Fibromialgia não sabemos ainda a causa exata da dor. Não identificamos nenhum dano tecidual. O que ocorre é que nos pacientes com Fibromialgia há uma sensibilidade maior à dor comparada a pessoas sem Fibromialgia.

13. Por que somos tratados com medicamentos para depressão e convulsão se não sofremos disso?
     Como temos citado aqui, na Fibromialgia há toda uma falta de regulação da dor por parte do cérebro. Isto ocorre em parte por alterações dos níveis de neurotransmissores no cérebro, como a serotonina e a noradrenalina. Os neurotransmissores são substâncias químicas produzidas pelos neurônios, as células nervosas. Existem neurotransmissores que agem diminuindo a dor e outros que a intensificam. Os antidepressivos e neuromoduladores atuam aumentando a quantidade de serotonina e noradrenalina que diminuem a dor, sendo por isso eficazes e utilizados no tratamento da Fibromialgia.




segunda-feira, 18 de abril de 2016

Cartilha de orientações sobre Febre Reumática

Sociedade Brasileira de Reumatologia
Dr. Kléper Jean Medeiros Leopoldino

Orientações sobre Febre Reumática

1. O que é a Febre Reumática?
     A Febre Reumática é uma doença inflamatória que pode comprometer as articulações, o coração, o cérebro e a pele de crianças de 5 a 15 anos.

2. O que causa a Febre Reumática?
     A Febre Reumática é uma reação a uma infecção de garganta por uma bactéria conhecida como estreptococo. Essa infecção de garganta é caracterizada clinicamente por febre, dor de garganta, caroços no pescoço (gânglios aumentados) e vermelhidão intensa, pontos vermelhos ou placas de pus na garganta. A criança, geralmente maior de 03 anos de idade, poderá apresentar a infecção de garganta como qualquer outra criança e, geralmente, uma a duas semanas depois começa a apresentar as queixas da Febre Reumática.

3. Qualquer criança que tem infecção de garganta pode apresentar Febre Reumática?
     Não. Somente aquelas com predisposição para apresentar a doença. Inúmeras crianças apresentam frequentes infecções de garganta, especialmente nos primeiros anos de vida, porém isto não é suficiente para predispô-las a apresentar a Febre Reumática. A predisposição necessária para apresentar a doença origina-se de herança familiar e já nasce com a criança.

4. Quais são as manifestações da Febre Reumática?
     A manifestação mais frequente é a artrite que se caracteriza por dor intensa, que dificulta o caminhar, e por inchaço e calor discretos nas articulações. As articulações mais acometidas são os joelhos e tornozelos. É comum a dor e as outras alterações passarem de uma articulação para outra, permanecendo de dois a três dias em cada uma. A simples presença de dor em uma ou mais articulações ou nas pernas, e sem as outras alterações (inchaço e calor), não é um sinal da doença.
A segunda manifestação da Febre Reumática é o comprometimento do coração (cardite) caracterizado por inflamação nas válvulas do coração podendo deixar sequelas e limitar a vida da criança na idade adulta.
A terceira manifestação é a coréia, que se caracteriza por fraqueza e movimentos anormais nos braços e nas pernas e alterações no comportamento do paciente.

5. A criança com Febre Reumática sempre tem febre?
     Não. Embora o nome seja sugestivo, nem todas as crianças apresentam febre como manifestação da doença. Ela aparece com maior frequência durante a infecção de garganta e não necessariamente quando ela começa a apresentar as manifestações da Febre Reumática.

6. Como se faz o diagnóstico da Febre Reumática?
     Com base nas queixas que a criança vem apresentando nos últimos dias, ou seja, da presença de dor e inchaço nas articulações, acompanhado, na maioria das vezes, de febre, fraqueza generalizada e falta de apetite associada às alterações nos exames de sangue que podem comprovar a presença de inflamação: velocidade de hemossedimentação (VHS), proteína C reativa (PCR) e alfaglicoproteína. A presença de infecção de garganta antes do início das alterações articulares ou cardíacas é muito importante para o raciocínio do médico que poderá comprová-la por meio da dosagem da antiestreptolisina O (ASLO).

7. A ASLO dá o diagnóstico de Febre Reumática?
     Não. Ela é um anticorpo que o nosso organismo produz para combater o estreptococo durante ou logo após uma infecção de garganta. Portanto, ela serve apenas para dizer se a criança teve infecção por esta bactéria. Na ausência das manifestações típicas da Febre Reumática, a ASLO não tem nenhum valor para o diagnóstico desta doença. Oitenta por cento das crianças com infecção de garganta pelo estreptococo apresentam elevação da ASLO, porém somente 3% delas poderão apresentar Febre Reumática. É importante ressaltar que a presença de dor nas pernas e ASLO elevada não significam febre reumática.

8. Como se trata a Febre Reumática?
     O primeiro passo logo que se suspeita desta doença é tratar a infecção de garganta mesmo que ela tenha acontecido duas ou três semanas antes e isto deve ser feito com a penicilina benzatina (Benzetacil®l), antiinflamatórios, como ibuprofeno e AAS. Para o tratamento da coréia, o haloperidol ou o ácido valpróico até os movimentos cessarem. Embora estas etapas sejam muito importantes no tratamento da criança com Febre Reumática, a medida que poderá fazer a diferença na evolução do paciente é o que chamamos de profilaxia secundária, ou seja, a administração da penicilina benzatina nas doses acima referidas a cada três semanas (21 dias) para evitar que a criança tenha novos surtos da doença.

9. Por quanto tempo a criança terá que tomar a penicilina?
     Se durante o surto a criança não apresentou comprometimento do coração, deverá ser até os 21 anos ou por no mínimo cinco anos caso seja um adolescente; entretanto, se a criança apresentou cardite, poderá ter que fazê-lo até os 25 anos ou por toda a vida, dependendo da gravidade do quadro.
O uso correto da penicilina benzatina (benzetacil) a cada 21 dias é de fundamental importância para a prevenção da cardite reumática que pode causar sequelas no coração por toda a vida.

10. Quais as complicações que a criança pode apresentar se tomar a penicilina por muito tempo?
     O maior inconveniente desta medicação é a dor no local da aplicação. Não há qualquer efeito indesejável para o crescimento, para o esmalte dos dentes ou mesmo para os ossos da criança com o uso da penicilina por vários anos. Também não se tem observado resistência da bactéria (estreptococo) com o uso prolongado desta medicação.

11. E quanto à alergia à peniclina?
     Felizmente a alergia à penicilina é muito rara, em torno de 1,5% a 3% em todas as idades. Na criança com menos de 12 anos, as reações graves, como o choque anafilático, são mais raras ainda, estando na faixa de 0,7%. Portanto a reação alérgica causada pela penicilina benzatina não é comum.

12. A retirada das amígdalas pode melhorar a Febre Reumática ou impedir que criança tenha outros surtos?
     Não. Isto porque a criança poderá continuar tendo infecções pela mesma bactéria nas paredes da garganta mesmo na ausência das amígdalas.